O próximo fenômeno global depois de Lost e Game of Thrones

Este texto foi publicado originalmente na newsletter do Eixo XYZ.
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Após a indescritível experiência de acompanhar Lost ano após ano e a revolução que foi a chegada de Game of Thrones, eu ainda me questiono após o fim de ambas as séries: qual será o próximo fenômeno global a ser consolidado na história da TV? E com o impressionante sucesso de adaptação de The Last of Us me questiono: pode ela ser o próximo fenômeno global?

Para mim, uma série precisa atingir determinados objetivos antes de ser reconhecida como fenômeno global. Ela obviamente precisa ser popular a ponto de quase qualquer um saber do que se trata, nem que seja de forma vaga. A exibição precisa superar recordes anteriores ou pelo menos atingir números muito próximos. O lançamento precisa ser semanal com novas temporadas a cada ano, de preferência com hora marcada para a estreia do episódio. E, finalmente: é preciso espaço para a criação de teorias para engajar o público.

Lost e Game of Thrones tiveram tudo isso e muito mais. Ambas as séries representaram o maior orçamento para TV e a maior audiência global em suas épocas mais populares. No auge da exibição, também eram reconhecidas por quase todos na rua; uma como “aquela série que o avião cai na ilha” e outra como “a série dos dragões” (não é a toa que a HBO escolheu o título de A Casa do Dragão para a sucessora de Game of Thrones). E ambas permitiam aquilo que acho ainda mais fundamental para um fenômeno: criar teorias em cima de teorias a respeito do que vai acontecer na trama, episódio após episódio.

Lost mudou a forma de fazer TV com seus mistérios intrigantes, personagens repletos de carisma, orçamento elevado para a época e marketing nunca antes visto. A produção aproveitou a ainda jovem internet para compor e expandir o universo da série com sites e propagandas de organizações encontradas apenas na série, como a Hanso Foundation, e sites oficiais da Oceanic Airlines e Ajira Airways (ambos voos que caem na ilha) com pistas e enigmas.

Tudo isso fomentava a criação de teorias por espectadores de Lost a cada novo episódio. O que é a fumaça negra? Eles estão mortos? Se sim, então ilha é o inferno? O que é A Escotilha? O que é essa transmissão de 16 anos de uma francesa perdida na Ilha? Eles estão sozinhos na Ilha?

Embora Game of Thrones não tenha conseguido aproveitar a mesma estratégia de marketing do mundo real por se tratar de um universo de fantasia, seu orçamento recorde para efeitos visuais nunca antes vistos em séries de TV, o complexo mundo à sua volta e, novamente, as teorias que criávamos e o debate que cada fim de episódio gerava semana após semana foi suficiente para expandir o interesse do público a cada nova temporada. Afinal, todo mundo falava disso, quem iria ficar de fora?

E assim Lost e Game of Thrones definiram suas épocas. A primeira de 2004 a 2010. A segunda de 2011 a 2019. Já estamos em 2023 e ainda me pergunto: onde está o próximo fenômeno mundial?

Critique Westworld saison 4 : le jugement dernier

Nos últimos anos, algumas séries tinham potencial para se tornar “a nova Lost” ou ganhar o título de “nova Game of Thrones”.

Westworld (HBO) teve uma primeira temporada perfeita. Seu elenco era estelar, a trama era confusa e obrigava o público a criar teorias e debater o que aconteceu no episódio e seu lançamento era semanal, o que facilita a criação de conteúdo e disseminação da série pelo boca a boca. Mas ela falhou na espera de longos dois anos por temporada (2016, 2018, 2020 e 2022) e, dadas as expectativas elevadíssimas do ano de estreia, não conseguiu manter a consistência narrativa nos anos seguintes.

House of the Dragon (HBO) se manteve em alta durante toda a primeira temporada, boa parte por se tratar de uma série derivada de Game of Thrones, mas também por mostrar uma narrativa muito interessante com grandes saltos temporais quase até o final da série. Entretanto, com a segunda temporada podendo estrear apenas em 2024, a produção pode perder o calor do momento que foi responsável por manter GoT em alta ano após ano.

Dark (Netflix) é com certeza um dos maiores potenciais desperdiçados de uma série para se tornar um novo fenômeno global. Ela possui um ano de estreia espetacular, trama fechada em ótimas três temporadas e um universo feito para ser debatido episódio após episódio. Mas ela contou com um enorme problema desde o início: o formato de exibição da Netflix.

Stranger Things é definitivamente um fenômeno global, mas o hiato de um ano entre a segunda e a terceira temporada prejudicaram a série e, novamente, continuamos com a barreira do seu formato de exibição (discorro sobre isso na próximo parágrafo). Com a quarta temporada de Stranger Things, a Netflix buscou mitigar a queda de interesse com a estreia inicial de sete episódios e, cinco semanas depois, a exibição dos dois episódios finais. Dessa forma, a Netflix confirma que sua estratégia não é viável para grandes lançamentos, mas ao mesmo tempo não dá o braço a torcer.

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Uma série cuja temporada é lançada de uma só vez — ou dividida em duas, três ou quatro partes — nunca terá o mesmo impacto que uma temporada diluída a cada semana, goste você ou não. Ou a estreia passa despercebida por vários espectadores ou há um burburinho inicial sustentado por poucas semanas ou o público só tomará conhecimento depois de semanas após muito boca a boca.

Em uma série com dez episódios, são dez semanas consecutivas com a série em alta ou em crescimento a cada novo episódio, com dia e hora marcada para que todos se reúnam em frente à tela. Isso representa quase dois meses e meio para que o público possa promover a série e para que a emissora ou streaming aproveite o engajamento para continuar investindo em propaganda.

Foi isso que aconteceu com Chernobyl (HBO) e com Ruptura (Apple TV+). Lembro que eu acompanhei ambas as produções desde o início e quase não havia com quem comentar — a não ser meus pais que coloquei para acompanhar junto comigo. Mas graças à exibição semanal e à poderosa divulgação popular, ambas explodiram no fim de temporada e nas semanas seguintes.

Finalmente, voltando para o início: The Last of Us pode se tornar o próximo fenômeno global? Eu adoraria, mas acredito que não. Os motivos eu já expliquei no decorrer do texto e você agora já pode imaginar.

The Last of Us tem uma excelente história e há grandes debates a cada novo episódio, mas seu mundo não depende de grandes teorias, a trama pode já estar fechada para três temporadas e o objetivo da HBO pode ser alternar o lançamento de House of the Dragon com o de The Last of Us: uma em 2022, outra em 2023, uma em 2024, outra em 2025, e assim em diante. O hiato de um ano entre cada série pode prejudicar o crescimento de ambas as produções, mas não há dúvidas que continuarão sendo discutidas a cada nova temporada independente disso.

Embora o Apple TV+ seja um streaming “novo”, o sucesso de Ruptura pode se sustentar caso o lançamento se mantenha anual, uma vez que a plataforma estreia suas produções toda quinta-feira, às 23 horas. A série tem grande margem para teorias e já cresceu muito ainda na sua primeira temporada, mas ainda precisa quebrar a barreira de se tornar “pop” como Lost e Game of Thrones (esta segunda, vale lembrar, cujas temporadas iniciais exageravam em sexo e palavrões). Sem falar em outro grande problema: a disponibilidade do Apple TV, que até hoje não possui aplicativo para celulares e tablets Android.

Por enquanto, resta esperar para ver se a HBO será novamente detentora de um fenômeno global ou se a próxima série de sucesso internacional estará nas mãos de outra plataforma de streaming.

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